5 horas antes...
A sexta-feira do dia 13 de março seria um dia morto. Não que fosse supersticioso, mas não havia a menor vontade de sair de casa naquela noite. A manhã transcorrera bem, já estava se adaptando ao novo emprego e podia até dizer que sentia afeição pelos colegas de trabalho. Ouvia ”Paralamas do sucesso” sozinho em seu quarto quando o telefone tocou:
A voz, naquele tom embriagado... Neto contou sobre a festa da Rachel,(ou seria Monique?) Hoje à noite.
__ ...Vamos cara, ela só tem amiga gata. Se anima ai.
_ Não vai dar, queria ajeitar umas coisas aqui__ Rui falava sem emoção__ amanhã acordo cedo.
__ Deixa de ser viadinho, tu nunca sai pra lugar algum __ Pelo telefone Rui escutou um barulho semelhante a um grande gole em uma lata de cerveja. __ Em meia hora to ai.
Antes que Rui tivesse tempo de concluir qualquer coisa Neto já havia batido o telefone,
A meia hora demorou na verdade uma hora e meia, e as nove e vinte da noite Neto e mais dois amigos que Rui nunca havia visto antes apareceram.
Um pouco de cerveja caiu nas costas de Rui quando Neto o abraçou com as mãos ocupadas.
__ Cadê a Débora? __ Perguntou Neto.
__ Minha mãe foi organizar uma festa na Barra, só vai voltar bem tarde...
O rapaz de cabelo curtinho, o mais forte, contemplava uma foto na estante que mostrava Débora sozinha segurando uma taça de champanhe numa festa de cruzeiro.
__ Ah, já tava esquecendo aquele ali é o Angra__ O rapaz deu um breve aceno de cabeça __ E esse é o loco __ O rapaz de rosto redondo e avermelhado estendeu a mão para Rui apertar.
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Neto era seu amigo? Via aquele rapaz fumando e dirigindo com uma mão, rindo muito. Não lembrava nada o Neto cagão que morava na casa do lado. O menino gordinho que era chacota de todos se transformara num homem debochado, que perdera o valor por quase tudo. Neto era a única pessoa daquele tempo que ainda insistia em manter contato. Mas Por que se importava com ele?
Olhando os postes de iluminação passando a cento e dez por hora pelas janelas do carro, tendo as conversas sobre noitadas exóticas dos três ocupantes do carro como um longínquo som de fundo, Rui pensava sobre si mesmo. Tinha impressão que não possuía nada, de ser vazio. Então o rosto de Sofia apareceu em sua mente.
__ ... O Rui tava pegando ela __ De repente a voz de Neto passou para o primeiro plano.
__ Que? __ perguntou Rui realmente dessituado do assunto.
__ Cara __ Neto vira-se para olhar para Rui desviando perigosamente os olhos da direção __ Eu to contando que você já pegou aquela mulher que tava no meu churrasco, a magrinha...
__ Sofia?
__ Isso malandro__ Neto sorria como um maníaco __ sabia que começava com “s”. Angra ta afim dela.
Rui não deixou transparecer, mas por dentro seus sentimentos faziam acrobacias.
__ Maluco, ela é muita gata, né? __ Angra se virava no banco do carona para falar com Rui no banco de trás. Falava de jeito relaxado, descontraído __ Ela tem cara daquelas atrizes de filme pornô francês.
O malabarista fez truques ainda mais complexos tornando ainda mais difícil não transparecer nada. Aquelas palavras soaram de forma estranha, mas mesmo assim forçou um sorriso.
__ Ela é sim, mas nunca fiquei com ela __ O malabarista havia caído, e Rui não percebeu que seu tom de voz havia mudado.
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