Tocava “Eduardo e Mônica” quando Rui chegou à festa. O cheiro de churrasco dava para ser sentido de longe, assim como os risos das meninas e o barulho de água sendo espirrada para fora da piscina. O sol sorria amarelo, refletido no bico da chopeira.
Tomou dois copos sozinho, encostado no parapeito da cobertura até Neto, um tanto bêbado, encontrá-lo. Comentou algo sobre o biquíni da Ana, coisa que Rui não entendeu muito e achou não valer a pena procurar entender. Arrastou-o para um grupo de pessoas que Rui nunca havia visto, largou a caipirinha que estava bebendo na mão dele, depois saiu dizendo que ia ao banheiro.
Aquelas pessoas talvez fossem interessantes. Eram duas meninas, cujos nomes Rui não lembrava, ou não tinha certeza se realmente foram apresentados, magras, bonitas e falantes; e três caras. Um deles perguntava o nome de Rui a cada minuto. Algo bem chato. Não fez questão de entrar no assunto, olhava para os rostos deles e acenava com a cabeça de vez em quando. Eles também não se interessaram em Rui, o que não o magoou nem um pouco.
O céu já havia ganhado um tom arroxeado e as primeiras estrelas já podiam ser vistas. O vento batia leve e não tinha cheiro, mas era muito gostoso. Foi mais ou menos nesse momento, quando sua bexiga clamava pela terceira ida ao banheiro, que Rui viu, em pé ao lado da escada de incêndio, a menina do ônibus.
Por um segundo pensou ser apenas o efeito do álcool. Qual a probabilidade de alguém que você viu uma vez no ônibus estar na festa de um amigo?
Mas quando voltou, ela ainda estava lá. Era ela sem dúvida. O cabelo castanho ondulado, o corpo esguio, o rosto de menina e um sorriso que lhe criava covinhas e fazia os olhos quase sumirem... Resolveu aproximar-se.
-- Oi, com licença -- disse Rui, pegando no braço da moça sem nem olhar para o rosto da amiga com quem ela conversava -- Lembra de mim?
Foi uma pergunta idiota. Se estivesse menos bêbado não teria coragem de fazer aquilo.
-- Desculpa, mas quem é você? -- ela parecia fazer esforço para se lembrar -- Não estou lembrando mesmo... A gente tava na mesma republica em Ouro Preto?
-- Nunca estive em Minas -- Rui percebeu que estavam sozinhos, a amiga estava agora enchendo a tulipa na chopeira. -- Te conheço do ônibus. Te vi no ônibus, lembra? Você lia “Memórias Póstumas”.
A moça riu. Por um segundo acreditou que aquilo fosse um bom sinal, mas logo veio a realidade.
-- Cara, você é maluco? -- Ela disse de forma tão espontânea, que até a palavra “maluco” parecia bonita vinda da boca dela.
-- Ah, desculpa, acho que confundi então...
-- Não, eu estou mesmo lendo Machado de Assis, mas nunca ia imaginar alguém ia reparar e comentar assim, do nada.
Rui ficou aliviado com a declaração da garota, apesar do “maluco”. A amiga dela não voltou, então continuaram lá conversando. Descobriu que o nome dela era Sofia, que fazia letras na UERJ, que chorou vendo “Como se fosse a primeira vez” e que tinha problemas para relacionamentos mais sérios.
Já haviam se passado as primeiras horas da madrugada quando chegou em casa. No celular carregava o número de uma moça linda, e no peito um sentimento estranho que Rui não sabia exatamente se era bom.
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