Capitulo 1



O ônibus já estava em movimento quando Rui conseguiu subir. O motorista estava com pressa. Rui também. O sol estava quase a pino, o que era um péssimo sinal, pois às onze deveria se apresentar para uma entrevista de emprego.

Sentou-se ao lado de uma moça que lia “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Estava com o mesmo livro dentro da mochila, mas o dele era um exemplar de sebo, sem capa e de páginas amareladas e manchadas de café. Mesmo assim tirou o livro e fingiu concentração na leitura, o que era difícil já que lembrava a cada instante que uma oportunidade de trabalho estava indo para o ralo.

-- Está em que parte? -- Perguntou Rui, assim de repente -- No livro, já está onde? -- completou.

A moça tirou os olhos da página, intrigada, e disse de forma rápida e límpida :
-- Tô na metade ainda.

Ela voltou para a leitura. Com certeza estava fazendo papel de chato mas continuou.

-- Estou bem no início -- Disse apontando para o título onde logo abaixo havia uma dedicatória para o possível ex-dono do livro.

-- Ah, legal! -- Um sorriso amarelo num rosto bonito e de novo o ignorou.

O silêncio prosseguiu até o ponto em que Rui deveria descer. O “tchau” não correspondido foi ainda pior. Nem todas as pessoas dentro de um ônibus estão a fim de conversar, principalmente se elas estão lendo.

Sobre a entrevista, saiba que o currículo foi entregue e que promessas de ligarem até o final de semana foram feitas. Mas quantas vezes já ouvira aquilo?

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Rui morava no apartamento mais cinzento e sem vida de todo o edifício Heleonora, localizado no número 302 da Moncorvo Filho. Imóvel comprado por uma pechincha, já que ninguém queria saber de um apartamento que foi palco de um suicídio. Porém, Dona Débora não acredita em superstições, nem alma ou coisa do tipo, também havia mais coisas a se preocupar, como por exemplo, reaver o dinheiro que seu ex-marido, pai do Rui, limpou da conta dela. 

Por volta das oito da noite, o telefone tocou. Coisa que raramente acontecia. A ansiedade de que a ligação fosse da empresa fez Rui atender antes que o segundo toque terminasse de ressonar.

A voz de Neto do outro lado informava tristemente que não era o RH, mas escutar o amigo o fez um pouco melhor. Às vezes passava um mês sem ver a cara de nenhum conhecido, e às vezes dias sem pisar na rua.

Neto falava da festa de aniversário que ele ia organizar no condomínio dele. Seria legal para rever o pessoal. O tempo passara tão rápido desde o final do segundo grau. A maioria seguiu carreira em alguma multinacional, ou estava no exterior, ou concluindo a faculdade. E ele, o que era?

Aceitou o convite e disse à Neto que podia esperar por ele no sábado. E os dias que precederam o dia da festa foram sem graça. Ninguém telefonou, e a televisão não passou nada de interessante.

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