Capitulo 1



O ônibus já estava em movimento quando Rui conseguiu subir. O motorista estava com pressa. Rui também. O sol estava quase a pino, o que era um péssimo sinal, pois às onze deveria se apresentar para uma entrevista de emprego.

Sentou-se ao lado de uma moça que lia “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Estava com o mesmo livro dentro da mochila, mas o dele era um exemplar de sebo, sem capa e de páginas amareladas e manchadas de café. Mesmo assim tirou o livro e fingiu concentração na leitura, o que era difícil já que lembrava a cada instante que uma oportunidade de trabalho estava indo para o ralo.

-- Está em que parte? -- Perguntou Rui, assim de repente -- No livro, já está onde? -- completou.

A moça tirou os olhos da página, intrigada, e disse de forma rápida e límpida :
-- Tô na metade ainda.

Ela voltou para a leitura. Com certeza estava fazendo papel de chato mas continuou.

-- Estou bem no início -- Disse apontando para o título onde logo abaixo havia uma dedicatória para o possível ex-dono do livro.

-- Ah, legal! -- Um sorriso amarelo num rosto bonito e de novo o ignorou.

O silêncio prosseguiu até o ponto em que Rui deveria descer. O “tchau” não correspondido foi ainda pior. Nem todas as pessoas dentro de um ônibus estão a fim de conversar, principalmente se elas estão lendo.

Sobre a entrevista, saiba que o currículo foi entregue e que promessas de ligarem até o final de semana foram feitas. Mas quantas vezes já ouvira aquilo?

---

Rui morava no apartamento mais cinzento e sem vida de todo o edifício Heleonora, localizado no número 302 da Moncorvo Filho. Imóvel comprado por uma pechincha, já que ninguém queria saber de um apartamento que foi palco de um suicídio. Porém, Dona Débora não acredita em superstições, nem alma ou coisa do tipo, também havia mais coisas a se preocupar, como por exemplo, reaver o dinheiro que seu ex-marido, pai do Rui, limpou da conta dela. 

Por volta das oito da noite, o telefone tocou. Coisa que raramente acontecia. A ansiedade de que a ligação fosse da empresa fez Rui atender antes que o segundo toque terminasse de ressonar.

A voz de Neto do outro lado informava tristemente que não era o RH, mas escutar o amigo o fez um pouco melhor. Às vezes passava um mês sem ver a cara de nenhum conhecido, e às vezes dias sem pisar na rua.

Neto falava da festa de aniversário que ele ia organizar no condomínio dele. Seria legal para rever o pessoal. O tempo passara tão rápido desde o final do segundo grau. A maioria seguiu carreira em alguma multinacional, ou estava no exterior, ou concluindo a faculdade. E ele, o que era?

Aceitou o convite e disse à Neto que podia esperar por ele no sábado. E os dias que precederam o dia da festa foram sem graça. Ninguém telefonou, e a televisão não passou nada de interessante.

capitulo 2

Tocava “Eduardo e Mônica” quando Rui chegou à festa. O cheiro de churrasco dava para ser sentido de longe, assim como os risos das meninas e o barulho de água sendo espirrada para fora da piscina. O sol sorria amarelo, refletido no bico da chopeira.




Tomou dois copos sozinho, encostado no parapeito da cobertura até Neto, um tanto bêbado, encontrá-lo. Comentou algo sobre o biquíni da Ana, coisa que Rui não entendeu muito e achou não valer a pena procurar entender. Arrastou-o para um grupo de pessoas que Rui nunca havia visto, largou a caipirinha que estava bebendo na mão dele, depois saiu dizendo que ia ao banheiro.



Aquelas pessoas talvez fossem interessantes. Eram duas meninas, cujos nomes Rui não lembrava, ou não tinha certeza se realmente foram apresentados, magras, bonitas e falantes; e três caras. Um deles perguntava o nome de Rui a cada minuto. Algo bem chato. Não fez questão de entrar no assunto, olhava para os rostos deles e acenava com a cabeça de vez em quando. Eles também não se interessaram em Rui, o que não o magoou nem um pouco.



O céu já havia ganhado um tom arroxeado e as primeiras estrelas já podiam ser vistas. O vento batia leve e não tinha cheiro, mas era muito gostoso. Foi mais ou menos nesse momento, quando sua bexiga clamava pela terceira ida ao banheiro, que Rui viu, em pé ao lado da escada de incêndio, a menina do ônibus.



Por um segundo pensou ser apenas o efeito do álcool. Qual a probabilidade de alguém que você viu uma vez no ônibus estar na festa de um amigo?



Mas quando voltou, ela ainda estava lá. Era ela sem dúvida. O cabelo castanho ondulado, o corpo esguio, o rosto de menina e um sorriso que lhe criava covinhas e fazia os olhos quase sumirem... Resolveu aproximar-se.



-- Oi, com licença -- disse Rui, pegando no braço da moça sem nem olhar para o rosto da amiga com quem ela conversava -- Lembra de mim?



Foi uma pergunta idiota. Se estivesse menos bêbado não teria coragem de fazer aquilo.



-- Desculpa, mas quem é você? -- ela parecia fazer esforço para se lembrar -- Não estou lembrando mesmo... A gente tava na mesma republica em Ouro Preto?



-- Nunca estive em Minas -- Rui percebeu que estavam sozinhos, a amiga estava agora enchendo a tulipa na chopeira. -- Te conheço do ônibus. Te vi no ônibus, lembra? Você lia “Memórias Póstumas”.



A moça riu. Por um segundo acreditou que aquilo fosse um bom sinal, mas logo veio a realidade.



-- Cara, você é maluco? -- Ela disse de forma tão espontânea, que até a palavra “maluco” parecia bonita vinda da boca dela.



-- Ah, desculpa, acho que confundi então...



-- Não, eu estou mesmo lendo Machado de Assis, mas nunca ia imaginar alguém ia reparar e comentar assim, do nada.



Rui ficou aliviado com a declaração da garota, apesar do “maluco”. A amiga dela não voltou, então continuaram lá conversando. Descobriu que o nome dela era Sofia, que fazia letras na UERJ, que chorou vendo “Como se fosse a primeira vez” e que tinha problemas para relacionamentos mais sérios.



Já haviam se passado as primeiras horas da madrugada quando chegou em casa. No celular carregava o número de uma moça linda, e no peito um sentimento estranho que Rui não sabia exatamente se era bom.

Capitulo 3

Rui já havia vasculhado sua mente procurando uma desculpa para escutar a voz de Sofia de novo, mas nenhuma parecia satisfatória. Por que simplesmente não ligava e perguntava como ela estava? Só para disser “Oi!”. Mas não, se fizesse isso ela acreditaria que ele estava a fim dela, e todo mundo sabe que as mulheres não ligam para homens que demonstrem de cara gostar delas. Daria um tempo, mas nada. Olhou a tela do computador, desde a hora do almoço não produzira uma linha coerente e isso o frustrou muito.

Decidiu ligar. O telefone tocou uma, duas, cinco vezes até que uma gravação avisou sobre a caixa postal. Quem sabe fora melhor assim. Estava guardando o celular no bolso quando ele tocou.

__ Rui? __ era a voz de Sofia __ Você me ligou? Desculpa , sai da sala e esqueci o celular na bolsa.

__ Não, tudo bem.

__ Fala, o que foi?

Silencio.

__ Ehhh __ e disse primeira coisa que veio sua cabeça __ vai fazer o que no sábado?

__ Sábado? __ Rui escutou o riso dela, solto __ Você é engraçado. Poxa nem faço ideia, hoje é segunda, lembra?

__Ah ta, é que..
__ O pessoal daqui costuma se reunir num bar aqui perto, se quiser vir...
__ Ah ta,...
__ Só sabe disser “Ah ta”? __ perguntou Sofia num tom debochado.
__ Não. Ok, eu posso passar ai sim.__ Emendou Rui, um tanto sem graça.
__ As cinco?
__ As cinco.
__ Até lá então. Beijos __ Sofia desligou e de novo Rui sentiu-se estranho e vazio.

Capitulo 4

Caso tenha esquecido de fazer um exercício – na época do colégio – da lista de “para casa” será exatamente esse “um” que a professora irá lhe arguir. Se pensar em um número e não jogar será este o número premiado e para não fugir a regra o gerente de RH ligou marcando a entrevista para a improvável cinco horas.




Não ligou avisando à Sofia que não iria, mas outro dia marcaria outra coisa.



Na quinta pela manhã Rui ligou novamente, mesmo dia que descobriria que fora aprovado pela empresa de softwares.



Sofia atendeu descompromissada e feliz, parecia não escutar as explicações sobre o bolo que Rui dera na segunda, muito menos os “não tenho dinheiro” quando ela o convidou para uma boate em Ipanema. Louquinha, uma louquinha que Rui estava... estava... alguma coisa.

---



Os cabelos ondulados dançavam lentamente com o vento que batia ali na parte de fora da boate. Rui achava lindo. Sofia parecia tão adaptada aquele ambiente, sorria muito de coisas que Rui não conseguia prestar atenção.



Quando entraram, as três amigas de Sofia que os acompanhavam desapareceram na pista de dança lotada. Sofia dançava com o corpo próximo ao de Rui. A luz do estroboscópio fazia tudo parecer um sonho. O sorriso dela congelado em fotos sequenciais, tão perto que poderia sentir o cheiro do batom.



O tempo passava de forma tão estranha. E a mera menção de puxá-la para um beijo fez sua boca secar e coração disparar. Como ela fazia aquilo?



Em um passo mal ensaiado o corpo de Sofia colidiu com o dele. Mas não de forma suave e harmoniosa como um dançarino habilidoso chamaria sua amada para junto de si, o que aconteceu foi apenas um choque, fruto de um esbarrão. Um senhor de pele avermelhada e cabelos brancos se virava para desculpar-se.



O senhor de cabelos brancos sorriu ao encontrar os olhos Sofia. E a voz do homem saiu com forte sotaque italiano:



__ Esta gostando da noite, Anne?



Anne? Por que aquele homem que surgira do nada chamava Sofia de Anne?



__ Vamos sair daqui, Rui__ Ela pediu, já o puxando pelo braço.



O homem não fez nada para impedir. Parecia um predador sádico que se delicia com a expressão de horror da presa que após uma leve mutilação a libera só para vê-la escapar sangrando.



Naquela noite Sofia não explicaria nada a Rui.

Capitulo 5

Era incrível como só ela era capaz de ressuscitar sentimentos e remetê-lo para a condição de garotinho apaixonado. Via-se preso num emaranhado complexo de sentimentos, cheiros e texturas que diziam muito mas que calavam sempre quando buscados pela razão.




Não ligou para ela nos três dias que seguiram o ultimo encontro. Sofia manteve a inalterável distancia. Talvez quem sabe essa seja a razão para gostar tanto. Rui se considerava um desvairado, apaixonado pelo desconhecido, pela penumbra. Por tudo aqui que não podia ver ou tocar, e principalmente pelo que não podia ter.



Na segunda começara seu novo emprego, e a terça seria uma cópia fiel da segunda se não fosse pelo simples detalhe de Rui ter esquecido o celular em cima da escrivaninha do quarto e ao fim do dia encontrá-lo com seis ligações perdidas de Sofia.



Rui retornou a ligação. A conversa não durou mais que três minutos. Mas foi tempo suficiente para o rosto de Sofia ficar ainda mais desfocado. Pediu para não dizer a ninguém que aquele homem a encontrara, muito menos do nome que a chamou. Que um dia queria poder explicar tudo, mas por em quanto só podia falar aquilo.

Capitulo 6

Sofia andava pelas ruas do centro a passos rápidos. Rui seguia logo atrás. O relógio-termômetro no canteiro central da Presidente Vargas marcava três e vinte da manhã, 20°C. Foi mais ou menos naquele ponto que ela pegou um taxi e Rui a perdeu de vista.

Capitulo 7

5 horas antes...
A sexta-feira do dia 13 de março seria um dia morto. Não que fosse supersticioso, mas não havia a menor vontade de sair de casa naquela noite. A manhã transcorrera bem, já estava se adaptando ao novo emprego e podia até dizer que sentia afeição pelos colegas de trabalho. Ouvia ”Paralamas do sucesso” sozinho em seu quarto quando o telefone tocou:
A voz, naquele tom embriagado... Neto contou sobre a festa da Rachel,(ou seria Monique?) Hoje à noite.

__ ...Vamos cara, ela só tem amiga gata. Se anima ai.
_ Não vai dar, queria ajeitar umas coisas aqui__ Rui falava sem emoção__ amanhã acordo cedo.
__ Deixa de ser viadinho, tu nunca sai pra lugar algum __ Pelo telefone Rui escutou um barulho semelhante a um grande gole em uma lata de cerveja. __ Em meia hora to ai.

Antes que Rui tivesse tempo de concluir qualquer coisa Neto já havia batido o telefone,

A meia hora demorou na verdade uma hora e meia, e as nove e vinte da noite Neto e mais dois amigos que Rui nunca havia visto antes apareceram.

Um pouco de cerveja caiu nas costas de Rui quando Neto o abraçou com as mãos ocupadas.

__ Cadê a Débora? __ Perguntou Neto.

__ Minha mãe foi organizar uma festa na Barra, só vai voltar bem tarde...

O rapaz de cabelo curtinho, o mais forte, contemplava uma foto na estante que mostrava Débora sozinha segurando uma taça de champanhe numa festa de cruzeiro.

__ Ah, já tava esquecendo aquele ali é o Angra__ O rapaz deu um breve aceno de cabeça __ E esse é o loco __ O rapaz de rosto redondo e avermelhado estendeu a mão para Rui apertar.



---



Neto era seu amigo? Via aquele rapaz fumando e dirigindo com uma mão, rindo muito. Não lembrava nada o Neto cagão que morava na casa do lado. O menino gordinho que era chacota de todos se transformara num homem debochado, que perdera o valor por quase tudo. Neto era a única pessoa daquele tempo que ainda insistia em manter contato. Mas Por que se importava com ele?

Olhando os postes de iluminação passando a cento e dez por hora pelas janelas do carro, tendo as conversas sobre noitadas exóticas dos três ocupantes do carro como um longínquo som de fundo, Rui pensava sobre si mesmo. Tinha impressão que não possuía nada, de ser vazio. Então o rosto de Sofia apareceu em sua mente.

__ ... O Rui tava pegando ela __ De repente a voz de Neto passou para o primeiro plano.

__ Que? __ perguntou Rui realmente dessituado do assunto.

__ Cara __ Neto vira-se para olhar para Rui desviando perigosamente os olhos da direção __ Eu to contando que você já pegou aquela mulher que tava no meu churrasco, a magrinha...

__ Sofia?

__ Isso malandro__ Neto sorria como um maníaco __ sabia que começava com “s”. Angra ta afim dela.

Rui não deixou transparecer, mas por dentro seus sentimentos faziam acrobacias.

__ Maluco, ela é muita gata, né? __ Angra se virava no banco do carona para falar com Rui no banco de trás. Falava de jeito relaxado, descontraído __ Ela tem cara daquelas atrizes de filme pornô francês.

O malabarista fez truques ainda mais complexos tornando ainda mais difícil não transparecer nada. Aquelas palavras soaram de forma estranha, mas mesmo assim forçou um sorriso.

__ Ela é sim, mas nunca fiquei com ela __ O malabarista havia caído, e Rui não percebeu que seu tom de voz havia mudado.

Capitulo 8

__ Pode parar o carro aqui __ pediu Débora em tom educado __ Obrigada pela carona.

A rua estaria completamente vazia se não fosse pelos gatos que rasgavam as sacolas de lixos. Não havia lua, e a única luz vinha da entrada do prédio.

__ Tem certeza que não quer que eu te acompanhe até seu apartamento? __ Perguntou Otávio, numa forjada demonstração de cavalheirismo.

__ Não, obrigada __ A porta do carro já estava aberta e Débora já se preparava para lançar a segunda perna para fora do carro quando ele a puxou num beijo.

Ele era muito mais forte. E o beijo durou até Débora empurrá-lo e sair do carro. Otávio contornou o carro e correu atrás dela. A perseguição durou poucos passos, apenas a distancia entre o carro na calçada e o portão de ferro na entrada do prédio. Ela era mais rápida.

Subindo os lances de escada correndo, ela tentava ouvir se ele havia desistido, se haveriam passos atrás dela, ou barulho do portão sendo forçado.

Quando chegou, a casa vazia, sentou-se no chão, as costas contra a porta. E chorou.

Por que tudo sempre tinha que dar errado? Até quando se esforçava para dar certo, as coisas davam errado. Acabara de ser assediada, agredida, pelo marido de sua tão recente sócia.

Aquele dia parecia tão perfeito, elogios e mais elogios para o bufê, decoração, orquestra selecionada. Começariam a ter lucro depois dessa festa, mas agora não saberia se teria estomago de rever Verinha, sua sócia, sabendo que teria que estar de frente com Otávio. Mas mesmo que ele não estivesse presente, Vera além de sócia era sua amiga, e não era certo deixar uma amiga ser enganada por um verme como aquele.

Débora sempre soube, ou sempre suspeitou que Otávio a olhava com desejo. Mas talvez fosse impressão, quem sabe todos esses meses sem sexo tivesse mexendo com a cabeça dela. E a corona ia cair tão bem já que era tarde e uma corrida de taxi da Barra até o centro em bandeira dois não sairia barato.

Mas o que iria disser? Que a sociedade simplesmente acabou? Ao mesmo tempo que sentia nojo de Otávio também não se achava no direito de interferir num casamento de mais de três décadas.

Capitulo 9

__ Neto, olha, eu não vou demorar muito não __ Avisou Rui abrindo a porta do elevador __ Amanhã eu trabalho.
__ Consegue voltar sozinho? Sei que horas vou voltar não __ disse Neto em tom despreocupado entrando no elevador __ Mata o trabalho.
Aquelas palavras soavam fácil para ele porque nunca precisara realmente trabalhar. Não era como Rui que depois do sumiço pai teve o padrão de vida qual era acostumado reduzido a quase nada. Em dezembro, completará cinco anos que nunca mais teve noticia do velho Edu Alves, seu pai e proprietário de três construtoras e de inúmeros imóveis por todo mundo. Também autor de um golpe milionário tão bem realizado que ninguém sabe onde ele possa estar. É como se de repente ele tivesse deixado de existir, entrado em outro mundo. Todo o dinheiro das empresas também sumiu sem vestígios. A policia daqui esta contando com a colaboração da policia de outros países, mas até agora sem êxito.

Mas para o Sr Antoine Guidorizzi Neto, ou simplismento Neto, as coisas eram bem diferentes: O único emprego que tivera na vida fora como contador Junior em uma empresa de um amigo do pai dele. Foi demitido na segunda semana. Durante uma festa de confraternização da empresa ele ficou bêbado, apertou os seios da secretária, cantou a gerente de RH e vomitou o vestido importado da mulher do diretor da empresa. Neto contou ao seu pai que pedira demissão por conta própria porque queria voltar a estudar. E desde então ele se dedica à cursinhos, e com um pouco de sorte estará indo para o quarto ano de pré-vestibular.

Quando o elevador parou na cobertura já podia escutar a musica eletrônica vindo da festa. Um grupo de três garotas conversava perto da escada de incêndio. Na parte coberta, onde ficavam as mesas com comidas e os freezers, algumas meninas dançavam de sutiã sobre uma mesa. Na parte de fora algumas pessoas conversavam perto do parapeito e entre essas pessoas Rui reconheceu Sofia, sozinha debruçada sobre o parapeito, olhando para a rua lá em baixo.

__ Oi __ Disse Rui aproximando-se. __ Posso ficar aqui com você?

Ela se virou para vê quem falava, e ao encontrar Rui ela sorriu surpresa.

__ Não sabia que vinha. __ Ela disse, num tom lento não habitual.

__ Sou amigo do Neto. __ Rui olhou nos olhos de Sofia e perguntou: __ Você esta bem?

Ela não respondeu. Apenas abaixou os olhos e deixou escapar um sorriso vazio.

__ O que aconteceu naquele dia?

Ela continuou calada. Mas dessa vez manteve o olhar.

__ Sabe Rui, eu... __ E foi interrompida por Angra, trazendo uma bebida em cada mão.

__ Eae Cara, tudo certo? __ Disse Angra se aproximando __ E você? Aceita?

__ Perguntou oferecendo o outro copo a Sofia.

__ Olha que gentileza __ Disse Sofia sorrindo __ Adivinhou! “Pina Colada”, perfeito!

__ E você deve ser a Sofia, acertei?

__ Sim, __ respondeu com um sorrisinho, o copo perto dos lábios __ E você?

Rui deixou os dois sozinhos nesse momento, não fazia sentido ele continuar ali. E nem entendia como alguém podia mudar de humor tão rapido.

Foi até o Freezer e se serviu de com uma dose vodka com abacaxi. As meninas já não tinham mais sutiã. Duas dançavam bêbadas apenas de shortinho enquanto a outra beijava uma garota no sofá.

Enquanto bebia, e assistia as investidas de um cara tentando beijar a dançarina sem sutiã, ele imagina Angra e Sofia. Imaginava mãos e movimentos, mas pela primeira vez aquilo não o torturou. É estranho conceber que existam pessoas que sejam capazes de sorrir e parecer agradáveis para todo mundo. Ela era solta, e talvez nunca viesse a pertencer a ninguém.

A garota já estava quase ao lado de Rui. Nem havia reparado que ela estava se deslocando tanto pra fugir daquele cara, os braços tentavam manter o corpo longe dele que insistia na aproximação. Ela colocou a blusa. Olhos castanhos encontraram os olhos de Rui.

Quando a rapaz desistiu ela foi ao bar, recostou no balcão ao lado de Rui, e se serviu de uísque. Rui olhou novamente, ela voltou o rosto e sorriu. Ele sorriu em resposta.

__ Cara chato, heim?! __ iniciou Rui.

__ Ehhh... __ ela deu outro sorriso, a maquiagem estava um pouco borrada e ela bêbada.

__ Às vezes é difícil para as pessoas interpretarem as reais intenções dos outros. __ Disse Rui, chegando mais próximo para falar __ E nem sempre quem sorri pra você quer seu bem.

__ O que você quer disser?

__ Nada.

__ Você é engraçado.

__ Não é a primeira a falar isso não.

Ela riu de novo. E quando se preparava pra pegar o copo e partir Rui seguro-a pelo braço.

__ Não disse seu nome.

__ Liz.

__ Isso é apelido?

Ela começou a rir de novo, e quando Rui percebeu que ela olhava para seus lábios puxou-a para um beijo.

__ Vem cá, vamos lá pra fora. __ Convidou Rui. Na verdade ele tinha a intenção de ver como Angra e Sofia estavam.

Do lado de fora muitos casais já haviam se formado mas nem sinal de Sofia.

__ Ta procurando a namorada?

__ Que? __ Perguntou Rui.

__ Se ela tiver aqui eu entendo, a gente pode ir para outro lugar.

__ Que lugar?

Ela apenas riu. E tropeçando conduziu Rui até o quarto onde as bolsas estavam guardadas.

__ Tenho a chave __ Enfiou a mão no bolso do shortinho e deixou cair no chão um molho de chave. __ Caramba, caiu. __ E começou a rir de novo.

Rui pegou a chaves.

__ É a prateada compridinha...

Rui abriu a porta. O lugar tinha apenas duas mesas, e muitas bolsas largadas sobre elas e no chão.

Liz fechou a porta e começou a beijar Rui. A única luz vinha da festa, filtrada por um basculante no alto. Rui beijava-a no pescoço, as mãos por dentro da blusa apalpando os seios. Ela já fazia movimentos com a mão dentro da calça dele. Ela desceu o short. Os beijos aqueciam. Com os dedos, beijando os seios, ele descia a calcinha dela. Rui preparava para tirar o jeans quando escutou uma voz familiar.

__ Oi, tem alguém ae? __ Sofia falava batendo na porta __ Tenho que pegar minha bolsa.

Rui subiu as calças de novo e abriu a porta. A calcinha de Liz na mão.

__ Rui? __ Ela parecia um pouco assustada. __ cadê minha bolsa? __ Ela parecia censurar Liz com os olhos, esta que assistia tudo parada. A atitude brusca de Rui em abrir a porta não dera tempo a ela de agir.

Rui reconheceu a bolsa vermelha da Prada que ela usava e entregou-a.

__ Já ta indo? __ Perguntou Rui, Mas não houve resposta. Ela apenas saiu e Rui seguiu atrás deixando Liz nua gritando “filho-da-puta, volta!” sozinha no quarto.

Ela estava quase correndo e conseguiu entrar no elevador antes que Rui tivesse tempo de se aproximar. Desceu os doze andares correndo, tropeçou em alguns, caiu no terceiro andar, mas conseguiu chegar a tempo de vê-la saindo do estacionamento no carona do carro do mesmo senhor de sotaque italiano que ele vira na boate.

Um taxi saia da garagem vizinha e sem pensar duas vezes Rui entrou.

__ Siga aquele carro __ A frase mais clássica dos filmes policiais foi o maior erro da vida de Rui.

Capitulo 10

Os pingos de chuva corriam pela janela do taxi. Aquela hora da noite não era difícil seguir o carro de Sofia. Rui pensava em quase nada, sentia os olhos do taxista queimando de interrogação pelo espelho, mas tudo em silencio. Sentia o cheiro da chuva que vinha pela janela quase fechada, e os pingos que acertavam de vez em quando. Teve vontade de desistir. Qual sentido daquilo? Para que segui-la?


Quando passava pela Presidente Vargas o carro onde Sofia estava começou a encostar. Estacionou próximo a um ponto de ônibus. Rui observava tudo. Ela desceu e o carro seguiu. Rui abriu a porta e saiu do taxi.

__ Calma ae, você tem que me pagar a corrida __ O taxista falou apressado. Mas Rui não queria perder Sofia de vista.

Ela andava graciosa e ligeira, sozinha naquele lugar deserto e frio.

__ Cara, você não me pagou __ O taxista estava atrás dele.

__ Toma __ Disse Rui sem reparar que estava entregando a calcinha rosa de Liz que ele vinha trazendo enrolada no pulso.

__ Cara, olha aqui, eu to falando serio __ O tom do taxista havia mudado, ele jogou a calcinha no chão __ Tem uma viatura parada logo ali e...

Rui abriu a carteira e entregou a única nota de cinquenta que havia dentro dela.

__ Toma cuidado com a vida, maluco __ Disse o taxista arrancando com o carro.

A chuva começou a cair mais forte. Não havia mais sinal de Sofia. Olhou em volta, só havia lojas fechadas que agora suas marquises serviam de proteção para mendigos, prédios altos de luzes pagadas, cheiro de urina misturada a cerveja, mais nada... Continuou andando, ela não poderia ter ido muito longe.

Estava tão concentrado escutando os barulhos da rua e se questionando onde ela poderia ter ido ou o que estaria fazendo que teve um sobressalto quando celular tocou avisando a chegada de uma nova mensagem.

“Eh perigoso continuar me seguindo.
 Ele percebeu.
 Dps a gnt conversa,
 Bjs,

 Sofia.”

Capitulo 11

Otávio Miranda era um sujeito sem graça, do tipo que atravessa a rua esbarra no teu braço e você minutos depois não lembrará mais o rosto dele. Aos 53 anos de idade já tinha a cabeça totalmente grisalha e se recusava em pinta-la. Traços retos, rosto simétrico, pelo bronzeada de muitos anos velejando.


Casado há quase trinta anos com Vera Klein Miranda, mulher vaidosa que mesmo já a porta dos 60 continua parecendo a mesma menina mimada que conhecera quando era adolescente em uma viagem a Ilha Grande. Os filhos não vieram, primeiro por egoismo de Vera que recusava em abdicar anos de sua vida para cuidar de meninos e temia por seu corpo também. Depois veio o problema no útero.

Um homem aparentemente comum, que cumprimentava o porteiro e sempre dava gorjeta na padaria. A primeira excentricidade vem pelo seu fascínio por organização, ordenar e calcular coisas incomuns. Tem guardado numa agenda a quantidade e os dias que conseguira levar sua mulher ao orgasmo. Criou medidas para estresse, ansiedade, medo e outra coisas imensuráveis.

A primeira terça feira do mês, das 7:00 as 8:00 da manhã era a melhor hora do mês. Era quando desenrolava do tampo do fundo falso da gaveta de cuecas um envelope com fotos e gráficos.

As fotos sobre a cama dispostas em quatro fileiras de cinco e uma fileira de quatro, traziam imagens de mulheres semi-nuas ou totalmente peladas nos mais diferentes lugares. Algumas apareciam acorrentadas usando cinta liga e mais nada, outra foto mostrava uma moça loira deitada sobre a grama usando orelhinhas de coelho e com os seios rosados a mostra.

Os graficos traziam numeros complicados, dados confusos, previsões e estatísticas. Havia uma lista com o nome de 25 mulheres, 23 riscados com caneta azul, um riscado de caneta vermelho e um onde não havia anotação nenhuma, o ultimo nome da lista, onde lia-se “Débora Teixeira Alves”.

Capitulo 12

_ É, isso é bem estranho mesmo. Mas desde aquele dia você nunca mais falou com ela? __ Neto perguntava a Rui sem tirar o olho da tela do computador.


__ Não __ Respondeu Rui,sentado na cadeira giratória empurrando o saco de pancadas que ia até quase encostar na porta do armário e depois voltava no seu antebraço. __ Não liguei porque não tenho o que falar, entende?

__ Sei... Diz que quer revê-la, simples!

__ Não sei se é tão simples.

__ Por que?

__ Não sei, acho que há alguma coisa estranha. Ela é misteriosa de mais__ Rui olhava pela janela, ali do oitavo andar e na posição que se encontrava, as únicas coisas que podia avistar eram os prédios vizinhos. Uma moça se debruçava na varanda olhado o movimento lá em baixo,pela distancia não conseguia ver o rosto. Mas estaria pensativa. Quem sabe só estivesse pensando em que boate ir à noite, ou que roupa de grife comprar. Não, ninguém se prende ao vazio para pensar superficialidades, quem sabe sofresse por algum amor misterioso. __ As vezes temo o que vou descobrir.

__ Olha o tamanho do peito dessa mulher, caraca!

__ Cara, desliga essa porra.

__ Deixa de ser boiola, por isso a magrinha ninfeta te faz de otário. Porque você é um boiola. __ Neto voltou-se para encarar Rui, falava em tom sarcástico.

Houve silencio no quarto. Rui pensava nas vezes que já vira Sofia beijando outros caras e Neto pensava como alguém podia gostar tanto de uma pessoa que não lhe dá atenção.

__ Cara, existem milhares de mulheres só nessa merda de cidade. Não vale a pena se apegar a ninguém, nada é insubstituível. __ Neto olhou para o chão, coçou a cabeça e continuou: __ Pra mim ela é apenas mais uma dessas vagabundas que Angra e eu cansamos de comer por ai. Só que essa é vaidosa e gosta de ter um babaca que a bajule e finja preocupação. E eu não quero que o meu amigo seja essa babaca, merda!

O discurso machista de Neto não o comoveu muito, permaneceu sentado e dessa vez o saco de pancada voltou com mais velocidade e o acertou desprevenido no rosto.

Neto também não se moveu. Permaneceu sentado de lado para o computador, encarando o amigo que massageava o maxilar.

__ O que você se tornou? __ A voz de Rui saia fraca, a dor no maxilar incomodava mas sentia como se uma cinta apertasse seu peito, comprimisse seu torax e deixasse a cada segundo a respiração mais dificil e dolorosa. __ Na época de colegio a gente fugia junto pra não levar uma surra dos garotos só porque não dávamos cola a ninguém. Você era apaixonado pela Gabi, e sempre dava a parte recheada do seu biscoito a ela. A Gabi também é só mais uma vagabunda agora?

__ Cala a boca, você ta ficando realmente maluco. Nem faço ideia de onde anda essa garota.__ Neto enfiou a mão no bolso e tirou o celular __ Toma, liga pra ninfeta. Descobre onde ela está e desencana logo dessa porra.

Rui pegou o telefone. Ficou um tempo em silencio olhando o aparelho.

__ Tá ok, vou ligar. __ O telefone caia direto na gravação informando que o numero estava desligado. Tentou mais duas vezes e depois disse descontente: __ Desligado.

__ Rui, sabe o que eu acho? __ começou Neto, o rosto debochado __ Você devia largar de vez essa mulher ai e voltar a atacar meninas bêbadas e deixa-las peladas no meio festa.

Os dois começaram a rir. Vez ou outra Rui tinha lampejos que traziam a cena mulheres nuas e calcinhas enroscadas no punho.

__ Eu não entendo por que você insisti tanto com essa garota __ Continuou Neto __ Primeiro eu achei que era só uma meta passageira, e admirei teu foco. Mas depois percebi como você fica quando esta com ela. Rui, não vale a pena.

__ O que não vale a pena? Gostar de verdade de alguém?

Neto deu um risinho de canto de boca soprando ar pelas narinas.

__ Você está parecendo uma menina falando assim... Só acho que você esta desperdiçando seu tempo, e isso me deixa um pouco puto.